domingo, 10 de janeiro de 2010

Precisamos nós preparar para outros abalos sísmicos

Cearenses precisam se preparar para outros abalos sísmicos

Eduardo Menezes: ´O nível de atividade sísmica é considerável´
24/2/2008
Eduardo Menezes - membro da equipe de pesquisadores de Sismologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que veio esta semana ao Ceará, para analisar os tremores de terra registrados na Zona Norte - é treinado em Viena (Áustria), ligado à Rede Mundial do Serviço Geológico Americano e responsável pelas modernas Estações Sismográficas Digitais do Nordeste, financiadas pelo CNPq.O que, de fato, está acontecendo no Norte do Ceará?São movimentos de rochas no subsolo, que ocorrem a 12, 15 quilômetros de profundidade, em um raio de, aproximadamente, 60 quilômetros, e que provocam tremores na superfície. De 28 de janeiro a 22 de fevereiro foram registrados mais de 56 eventos, sendo o maior registrado sábado, 16, por volta das 23 horas, com magnitude de 3,5 na Escala Richter. Nessa região, tremores de 4,5 ou 5,0 são possíveis, em função da profundidade em que se originam.A população está aterrorizada com a terra em transe.Mas não precisa, porque esse nem foi o primeiro nem será o último terremoto por aqui. Acredito que continuará acontecendo, porque essa região é propícia a esse tipo de fenômeno, está sempre demonstrando atividade. Só não podemos garantir se as intensidades podem aumentar ou não, porque estamos lidando com natureza e não existem formas de prever tremores de terra, em nenhuma parte do planeta. O pesquisadores bem que gostariam mas, infelizmente, até hoje, não temos as respostas que todos gostariam de ter.Falar em terremoto é lembrar do tsunami de 2004.É verdade. As ondas gigantescas de Sumatra, na Indonésia, ficaram registradas como um dos piores desastres naturais da história. O terremoto, que atingiu 9,3 na Escala Richter, matou milhares de pessoas e, mesmo assim, com toda tecnologia e equipamentos moderníssimos, não foi possível prever a faixa de ruptura que provocou o abalo. O que aconteceu no Oceano Índico se propagou, praticamente, por todo o planeta. Pouca gente sabe, mas aquelas ondas chegaram até a costa brasileira. Temos indícios de marégrafos (equipamentos que medem o nível da água no mar), que registraram, horas após a ocorrência do tremor, com intensidade pequena, o reflexo do tremor.Mas tremor de terra no Brasil é quase novidade.Não tanto. Os abalos ocorridos em João Câmara (RN), em 1986, foram pioneiros para os estudos sismológicos no Brasil, mesmo havendo relatos de abalos anteriores mais fortes (1955, em Mato Grosso; 1955 no Espírito Santo; 1980 no Ceará; e 1983 no Amazonas). Somente a partir daquele ano, estudiosos e autoridades deram o pontapé para montar grupos, equipamentos, dar segmento em estudos e tentar entender esses fenômenos. O Nordeste é a região do Brasil com maior intensidade de tremores, principalmente no Ceará e Rio Grande do Norte. Agora, conhecer e saber lidar com o fenômeno é a grande questão. Informação é a chave para isso.A população entra em pânico porque desconhece?Isso mesmo. Até hoje, mesmo sem poder comparar com algumas regiões do planeta, o nível de atividade sísmica no Brasil é considerável, mesmo que nunca tenha causado grandes tragédias. Se o problema maior continua sendo a falta de informação, a solução ainda é a educação. É preciso informar a população para que ela esteja preparada para certas situações, que são inesperadas mesmo. Aqui temos atividades persistentes, ou seja, freqüência de tremores numa mesma região, de magnitudes relativamente baixas, chamadas pelos estudiosos de ´enxame sísmico´.Tão comuns e tão desconhecidos?Pois é. É a questão da educação. No século passado, um governante nosso ficou famoso dizendo que o Brasil não tinha nem terremoto nem vulcão e ainda teve a ousadia de mandar tirar importantes informações dos livros didáticos. Os professores ensinavam isso nas escolas e foi para o imaginário popular. Durante muito tempo a população ficou sem informações importantes. Com os tremores fortes que ocorreram em Chorozinho, Pacajus, Sobral, Palhano, Irauçuba, Hidrolândia, Alcântaras, Groaíras, e em muitas outras, citando só no Ceará, observamos o dano da desinformação. Graças aos estudos feitos na Universidade, com especialistas registrando a ocorrência desses eventos, essa situação está mudando. Mas leva um tempo, porque vira questão cultural. Não é da noite para o dia que a população vai assimilar essa idéia.Existem registros anteriores?Estou há mais de 20 anos nessa área e, nesse tempo, tive experiências riquíssimas. Na década de 80, por exemplo, fazendo um trabalho em Tianguá, encontrei manuscritos da Igreja Católica onde missionários e bandeirantes, que desbravavam os sertões no Século XIX, registraram experiências da população com fortes tremores de terra. Infelizmente, isso não está nos livros. E esse é um dos principais legados da Universidade. Ao longo dos últimos 25 anos, estamos acumulando documentação valiosa, passando para publicações, em todos os níveis de educação. Já temos um banco de dados bem rico, que servirá para nossos filhos, netos, bisnetos. Daqui a muitos anos eles saberão que, nessa região, nesse tempo, foram detectados tantos tremores de terra.Quais as conseqüências desses tremores freqüentes?O que estamos vendo: paredes rachadas, queda de telhas, medo, pânico. Na década de 80, em João Câmara, no interior do Rio Grande do Norte, que também está sobre uma falha geológica, ocorreu um abalo que atingiu magnitude de 5,2 pontos na Escala Richter. O tremor, que durou poucos segundos, danificou mais de mil casas. Mas, geralmente, os abalos nem são sentidos.A educação pode diminuir o temor?Muito. Ter conhecimento, saber que esses fenômenos podem ocorrer em determinados períodos, que passam tempos sem serem observados, depois podem voltar novamente, como se fossem escala de tempo, ajuda bastante. Tremores de terra vêm e voltam, como se fossem períodos de inverno, só que algumas vezes em espaços longos, outros, curtos. É importantíssimo que fique registrado o que acontece porque, no futuro, caso aconteçam tremores mais fortes, não serão surpresa para população. A informação de que em determinada região podem acontecer tremores de terra deve funcionar como uma reação em cadeia: entre pais, alunos, professores, técnicos. Todos devem saber dessa possibilidade.Em menos de um mês, na Zona Norte, foram mais de 50 tremores.Em Palhano, no Vale do Jaguaribe, em três anos, foram registrados mais de 25 mil abalos. Fizemos um trabalho educativo lá e obtivemos resultados excelentes. Em 1988, após muitas pequenas atividades sísmicas, houve tremor de 4,2 pontos. E, mesmo com o susto, não houve pânico entre a população. Em Hidrolândia, no espaço de um ano, registramos três mil abalos; Chorozinho, em oito anos, 30 mil. Em Caruaru (PE), em 17 anos, cinco mil; em São Caetano (RN), um ano, 500 terremotos. João Câmara (RN) bateu recorde. Em sete anos de monitoramento, foram 50 mil tremores. Em Sobral, em 1989, o número de sismos registrados em seis meses chegou a 100.E as Estações Sismológicas?Hoje temos seis estações digitais de alto ganho, utilizando sensor de banda larga, com espectro capaz de detectar tremores, utilizando três componentes: um vertical, movimento do solo sentido vertical; e dois componentes horizontais, medindo a frente de onda no sentido norte-sul e leste-oeste. Por isso é possível saber a direção exata de onde se origina o evento. Essas estações são de grande importância, pois dão monitoramento de todas as atividades que ocorrem no Nordeste do Brasil. Através das Estações de Solânia (PB), Ocara (CE) e Cascavel (CE), que estão funcionando no sistema de comunicação via Internet, conseguimos coletar os dados e fizemos análises preliminares da magnitude e identificação da área onde ocorreram os tremores aqui na Zona Norte. Apesar de a estação de Sobral estar operando desde agosto, ainda não tínhamos acesso a ela. Viemos aqui para instalar o link e monitorar atividades nessa região. Tudo isso faz parte de um projeto financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).O Projeto Milênio?Exato. Esse projeto tem a finalidade estudar a Província da Borborema, região que abrange Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Está ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia e gera os projetos de pesquisas através do CNPq. A UFRN é responsável pelas Estações Sismográficas no Nordeste, tanto do Projeto Milênio, quanto de outros órgãos, como Dnocs e prefeituras. No Ceará, a Universidade mantém monitoramento contínuo de dez estações: seis digitais e uma analógica no Castanhão; uma analógica em Cascavel; uma digital em Ocara e outra digital em Sobral. Esta semana, Sobral recebeu um link de Internet no qual teremos acesso direto aos dados e ocorrência de tremores em tempo real, de Natal (RN), sem precisar deslocamento. Porque é importante ter informação correta, na hora do acontecimento, principalmente para evitar rumores.Qual o conselho para população?Um dos principais pontos da sismologia como ciência é a aproximação dela com a realidade. Todos devem saber que essa é uma área suscetível a tremores e não é por isso que devem abandonar o local onde vivem. A questão é saber conviver com essa realidade. Um ponto interessante é saber das autoridades se, quando forem elaborar o Código de Obras dos Municípios, os técnicos se lembrarão de considerar a atividade sísmica para que as construções sejam mais resistentes e sofram o mínimo possível com tremores que por ventura possam ocorrer.
Reportagem retirada do Diário do Nordeste
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=514671
Opinião do Blog:
E muito verdade que psicologicamente as pessoas estão melhor preparadas que vinte anos a trás.
No entanto acredito que este e mais um aviso da natureza que precisa ser escutado, desde a década de 80 as cidades mais atingidas nada fizeram para se prepararem para mitigar algo parecido ou muito mais grave.
As autoridades precisão entender que esta região e propícia a este tipo de fenômeno natural e o despreparo pode acarretar em grandes prejuízos, um grande exemplo de que ocorrendo com que desrespeita esses avisos esta acontecendo no Rio de Janeiro e outras capitais do Brasil.
Esses municípios deveriam aprendeu a lição e passar a tratar a questão de forma responsável traçando um plano municipal de defesa civil capas de fazer frente a esta situação a começar pelo esclarecimento e orientação de forma a prepara a população para os inevitáveis tremores de terra.

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